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Assim caminha o Sarandi. Claudio Frederico Vogt

001021496315725050776 nA charrete do senhor TABORDA vai saindo lentamente ...da Rua TIRADENTES. Leva compras dos fregueses da Casa Santo Antônio. Na Estação, um ônibus da ÁGUIA BRANCA leva os rolos de fitas dos últimos filmes do Cine Guarany. O senhor DÂNDALO havia passado um programa duplo sobre a conquista do Oeste dos ESTADOS UNIDOS. As calçadas da Avenida 7 de Setembro são cheias de vida. Crianças fazem bolhas de sabão. Jogadores sobem, com velhas chuteiras, para o treino do Harmonia. No terreno de cima, os vizinhos esperam um galo de rinha da PALMEIRA. Exibem um Jacu caçado no potreiro do OLTRAMARI. No Armazém da Loja, os gatinhos mamam. Todos, ainda, de olhos fechados. No tanque, a Mãe ( JOVILDE ) lava roupa, quase sempre na água fria.

            Ouvindo as Homenagens Sonoras da então Emissora Sarandiense ou comendo abacate, eu refletia sobre o que acontecia, o que contavam ... Num passado, que hoje me mata de saudade, fiz uma descoberta que me assustou: a fragilidade da vida! A morte, às vezes, está por perto e nem notamos!

 

            Na calçada da Rua TIRADENTES, dois estudantes com suas malas, vindos da Capital, me reconheceram. Vieram visitar os Pais. Perguntei o que existe em PORTO ALEGRE? Um deles me respondeu: “Progresso.” E indagou o que existe no SARANDI? Respondi: “A felicidade!”

            Na Loja, a Dona IRMA media tecidos. A “DUDA” e a IVANICE pesavam gêneros. A MARLENE refletia sobre a situação de dois noivos... que jogaram as alianças na chuva. Tudo terminou por uma mentira. Ou meia verdade. A mentira é uma arma. Mas é pecado.

            O Pai ( FRIDOLINO ), no balcão central, atendia, atenciosamente e com entusiasmo, um freguês fascinado por armas. Estas faziam parte da cultura. A Cidade sofria influência do cinema. Alguns guris brincavam com revolveres de espoleta. Outros com espingarda de rolha.

 

            A honestidade tornou o meu Pai um homem popular. Ele ensinava e permitia que alguns fregueses dessem tiros nas paredes do Armazém. Quando o senhor ALBINO fazia compras, a gurizada já sabia que tinha que sair.

            Mas o freguês dessa tarde estava indeciso. Havia armas de vários calibres e marcas. O Pai se distraiu. Foi chamado várias vezes. O cidadão não quis pagar o preço da mercadoria.  Aproveitou a distração de todos. Pegou um revólver 38 e saiu. A partir da porta da Avenida, começou a correr, para cima.

 

             O Pai notou a falta da mercadoria. Ficou triste. Por educação, jamais faria uma coisa dessas para alguém! Muito magoado, saiu da Loja, como estava, sem levar nada. Orgulhoso, faria de tudo para não receber uma reprimenda do Tenente do EXÉRCITO. Este conferia o mapa, na íntegra! Começou a correr, de sapato, sobre as pedras duras. Levava, com ele, apenas, duas cartas estratégicas: um canivete velho e um santinho do Santo Antônio. A Loja não contava com Sistema de Segurança. Na distribuição de Soldados, SARANDI não estava nas prioridades da Brigada. Como dizia o DINO, meia cancha do HARMONIA: “o Sarandiense tem que bater o escanteio e correr para a área ... para cabecear!” Em síntese: o Empresário tem que fazer tudo!

 

            Mas será que vale a pena arriscar a vida? Por dois mil cruzeiros? Correr sem saber para onde? Deixar, talvez, uma família sem rumo? Correr com lobos? O bandido pode ter munição, arma branca, amigos esperando ... VOLTA, PAI, VOLTA!

 

            O fugitivo, na Rua ÂNGELO RECH, olhou para baixo. Queria saber se estava sendo perseguido. Estava. Dobrou. Continuou correndo. Estava preocupado. Arrependido. Ele foi surpreendido pela reação do Comerciante.

 

            Olhando de outro ponto de vista: não são os dois mil cruzeiros que estão em jogo. É o caráter de um cidadão responsável. A arma, em mãos desonestas, poderá tirar a vida de inocentes... CORRE, PAI, CORRE!

 

            O Pai, quando chegou na Rua ÂNGELO RECH, olhou para trás. Queria saber com quem poderia contar. Ninguém! Mas, na verdade, ele nunca esteve sozinho ... O Pai sabe que está correndo risco de perder a vida. Foi ele que ensinou que é perigoso viver. Já correu 300 metros. E não parou. Afinal, o que está em jogo? Tudo!

 

            O ladrão se aproxima da cerca do potreiro. Ele tem pouco tempo para pensar. Tem que decidir: lutar ou fugir? Mas como tirar a vida de um homem honesto? De um Comerciante que ajudou tanta gente? Olhou para o meu Pai, que continuava correndo. Alguém gritou: “Não atirem no FRIDOLINO!” Largou a arma na grama. Pulou a cerca, colocando as mãos num moirão. Correu pelo potreiro, na direção do Rio BONITO.

 

            O Pai, ofegante, após correr 400 metros, juntou a arma, agradeceu ao poderoso Santo Antônio e voltou para casa. Fomos ver os gatinhos. Já abriram os olhos. Ele saboreia o chimarrão que a Mãe fez. O cinema mostra o cartaz de um novo filme: “ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE”. O HUGO ROSSI escreve, no cartaz, o jogo de domingo, no Estádio PEDRO DE MARCO: HARMONIA X UNIÃO DE RONDINHA. O MECO vai jogar! Um grande amigo do Pai, o ALBINO PIZATTO, veio comprar uma espingarda ... É melhor tirar os gatos do Armazém! A Rádio FARROUPILHA disse que o PAPA está doente ...Apesar da fragilidade da vida, o meu pequeno SARANDI vai dar mais um passo. A vida continua. Obrigado, SANTO ANTÔNIO!

 

     A charrete do senhor TABORDA, Pai dos jogadores XIBA e JOÃOZINHO, vai saindo lentamente ... (Baseado em fatos reais)

Claudio Frederico Vogt – Coronel do EXÉRCITO Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.   

Foto - Reprodução Facebook José Leal

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