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O outono de cada um - Luciane Marangon Della Flora


Data de publicação: 24 de março de 2017
Coluna: Luciane Marangon Della Flora
Colunista: Luciane Marangon Della Flora



 


Viver é e sempre será a maior dádiva que se pode receber. Há muitos que nem percebem, mas o fato é que não há nesse mundo nada mais belo do que a própria vida. E nós, preciosos seres humanos, vamos crescendo e aprendendo a viver com o passar daquilo que costumamos chamar de tempo. Este, por sua vez, não faz pausas, age de maneira implacável e perfeita até no que julgamos ser imperfeito, modificando-nos sem que tenhamos a possibilidade de contradizê-lo.


Sem nosso consentimento, chega o tempo em que deixamos o calor que nos protege das friezas, tempestades e desertos desse mundo, para um enfrentamento constante, sem saber se teremos ou não a tal chamada determinação ou perseverança.


Nossas raízes são, então, fixadas em um solo que nos é concedido. Aqueles que têm sorte recebem um terreno fértil, propício à produtividade e contribuições positivas a esse mundo. Outros, por algum motivo alheio à vontade, têm de fixar suas raízes em um terreno arenoso, improdutivo. Independente de qual seja o solo de nossas raízes, não há como modificar o que constitui o princípio de cada um.


Vivemos, a partir daí, a primavera e conseguimos sentir o perfume das mais belas e coloridas flores. O sorrir é constante, afinal, as paisagens favorecem a ingênua e, por vezes, falsa e feliz infância. Entretanto, nada permanecerá igual após o passar da primavera e o chegar do verão.


Os abraços já não terão a mesma ternura e aconchego. Dada modificação da intensidade, é certo que o deserto haverá de ser enfrentado. Nessa época, embora haja tanta claridade lá fora, muitos costumam não enxergar aquilo que poderia ser a oportunidade de crescimento. Vivem, então, a tão conhecida adolescência cega.


Tantos são os conselhos, tantas são as tentativas de fazer com que se perceba que o deserto é passageiro e não permanência nos tantos outros anos que estão pela frente. Há necessidade de acreditar nas mudanças vindouras que favorecerão a vida, mas, mesmo assim, alguns fazem desse tempo, o seu eterno e irresponsável deserto.


Tolices imaturas! Se caminhassem com cuidado naquele terreno arenoso, chegariam, também, ao ápice daquilo que faz a vida ser vida.


Chegar ao nosso outono, despir-se das folhas secas é, por vezes, o mais belo processo de renovação, pois o mesmo é preciso para que possamos acompanhar e resistir ao implacável tempo.


Gostas de folhas secas em seu quintal? Há quem goste! Essas pessoas são capazes de carregar durante toda a vida os seus mais dolorosos dias e, um a um, vão constituindo um fardo que, certamente, abreviará os dias de suas vidas.


Ah! Tão bem vindo seja o tão necessário outono!


Só essa estação é capaz de compreender nossas lágrimas, nossos silêncios e as necessidades que carregamos no íntimo de nossa alma. Compreensivo, dá-nos o tempo para que possamos nos despir e, tal como uma árvore, abandonar as nossas folhas secas e verdejar para a vida. Assim, em nosso brando outono, independente de nossas raízes, a renovação torna o ar mais leve e puro para que, logo adiante, possamos enfrentar o frio de nossa existência.


O tempo, desse modo, segue seu curso e a vida, aquela que vivemos, é capaz de modificar-se de acordo com a nossa capacidade de trocarmos as folhas secas durante o outono de nós mesmos. Então, “outonemo-nos” ou, se preferir menos neologismos, transformemo-nos no outono!


Luciane Marangon Della Flora



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