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Sou gorda mesmo, e daí? - Kerley Carvalhedo


Data de publicação: 19 de abril de 2017
Coluna: Kerley Carvalhedo
Colunista: Kerley Carvalhedo



 


Tenho qualquer outra preocupação, menos em ficar gordo.



Tenho uma amiga que está beirando os 50 anos de idade, se não tiver passado. Sua vida inteira foi ser gorda. Seu maior sonho era um dia parecer com uma daquelas modelos de passarela que mais parece uma boneca de vudu. Oprimida. Nada contra as modelos, mas sim contra o padrão ditado pelo mundo da moda.


 


Minha amiga dizia: Eu sempre fui gordinha. Quando eu era criança eu parecia uma foca, (palavras dela). Ser gorda nessa fase é tão bom, todos te acham uma gracinha. Contou mais: minha adolescência não poderia ser a pior de todas as fases. As amigas do colégio eram todas magras e altas – eu baixinha e gorda. Quem era que queria andar durante o recreio com uma pessoa assim? Ninguém, claro. Sai à procura de um novo grupo; meu grupo. Achei a turma dos desprezados do colégio. Eram eles; os gays, as lésbicas, os feios e até outras gordinhas. Lá ninguém sofria bullyng, pois se mexesse com um a guerra estava travada.


 


Essa história não para por aí. Semanas depois ela teve a ideia de fazer uma dieta rigorosa, achou que passando fome resolveria o problema. Pronto! A dieta radical havia começado. Uma semana depois já dava para ver o resultado, ela tinha perdido uns quilos. Continuou o regime até um dia desmaiar dentro do colégio. Foi um alvoroço para acudi-la. A coordenadora já sabia do que se tratava e disse:


- Leve ela à cozinha.


Não precisou chamar ambulância, não é que a coordenadora sabia o problema da pobre criatura? O remédio foi nada mais e nada menos que um prato de comida. Depois de todo esse perrengue ela disse pra ela mesma que nunca mais tentaria ficar magra ou magérrima como as amigas.  


 


O mais engraçado aconteceu quando ela ainda depois desse fato histórico pensou que depois que casasse e tivesse filhos, o tal sonho da garota magra aconteceria. Infelizmente ao invés de perder peso ela ganhou uns quilinhos a mais. Os filhos cresceram, a idade chegou e os netos também. A coisa só mudou depois que um dos seus filhos lhe fez uma visita e consigo trouxe o netinho que ela nunca tinha o visto. Cheia de graça para o netinho disse que o amava, ela também abriu a boca e falou: a vovó é gorda.



- Chega! Até você? Sou gorda mesmo, e daí?



Foi ali mesmo que minha queridíssima amiga começou sua nova carreira como plus-size. Ela deu uma festa fantasia para as crianças. Sabe qual foi sua fantasia? Barbie. Já viram a Barbie gorda? Pois é, ela existe. E foi assim que minha amiga descobriu a felicidade de viver todos os personagens que ela gosta – só que em versão maior.  Pergunte a ela hoje se quer emagrecer, a resposta será alta e em bom som: não!



Depois de um longo período ela descobriu que ser feliz está além de uma aparência física. O bom é que pelo menos ela descobriu isso a tempo: viver os melhores momentos da vida.



Quem disse que a felicidade só pertence aos magros? Aceitar quem sou ainda continua sendo a melhor terapia. A autoaceitação é uma forma de amor próprio. Entendo que alguns fazem exercícios físicos, praticam esportes todos os dias para manterem a sua saúde e, claro, a aparência.


 


Tenho quaisquer outras preocupações; menos de ficar gordo. Preocupo-me também em envelhecer com saúde.


 


Corpo fitness é a moda, mas quando será moda de aceitar como as pessoas como elas são? 



Por: Kerley Carvalhedo



ela e gorda e desleixada ela e gorda e desleixada