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Era uma vez um menino - Luciane Della Flora


Data de publicação: 8 de maio de 2017
Coluna: Luciane Marangon Della Flora
Colunista: Luciane Marangon Della Flora



 


             Era uma vez um menino que estudava à luz de velas, que dormia cedinho, cansado de tanto de tanto trabalhar. Seus braços estavam doloridos de arar a terra e o sono não demorava a cerrar os seus olhos infantis, entretanto fatigados.


 


            No dia seguinte, o menino, juntamente com seus irmãos, caminhava quilômetros até chegar até a humilde escola. Nem sempre ele tinha um lanchinho, mas todos os dias, era certo, andava de chinelos, inclusive naqueles em que a geada insistia em tocar seus pequenos e frágeis pés.


 


          A atenção dispensada às letras e aos cálculos não era suficiente para esquecer o seu retorno. Seguia seu caminho de volta, à espera do almoço e lembrando-se de seus compromissos vespertinos. Quando chegava à tarde, o menino caminhava bastante, junto com os seus, para chegar ao local dos afazeres. Os bois de canga, Barão e Tigre, eram seus companheiros na atividade de arar a terra.


 


         Assim, o menino que calejava suas mãos na lavoura desde seus cinco anos de idade, aprendeu que, independente das dificuldades, o trabalho digno é uma dádiva e necessidade ao homem de bem. O tempo passou, o menino não conseguiu estudar, mas aprendeu trabalhar. Ele cresceu e constituiu família. Rico não ficou, mas os filhos conseguiu bem educar.  


 


Essa história pode ter feito você lembrar, nesse instante, de alguém. Com certeza, ela assemelha-se à história de tantos meninos de outros tempos. Hoje, os meninos são outros, a realidade é completamente diferente. Muitos não têm terra para arar, nem vontade de estudar. Presenciam dia após dia o corromper da sociedade em que aqueles que têm muito, que tem o poder, se dão ao direito de estabelecer as mínimas condições de vida para aqueles meninos já crescidos, de tantas idades e que trabalham para sobreviver.


 


          O contar das moedas para o leite da criança que chora não é raro e a sobrevivência do trabalhador, se aqueles dos grandes banquetes e de rostos cínicos soubessem verdadeiramente, está à margem de todos os mínimos educacionais, alimentares e habitacionais.


 


        Desse modo, a vida segue em locais diferentes. Uns com lustres e taças de cristais, sorridentes em grandes jantares, outros com gramado crescido, um menino crescendo e a máquina de cortar em suas mãos, afinal, a mãe tem muitas bocas para prover alimento e é preciso, desde cedo, ajudar!


            Era uma vez outro menino...


 


Por: Luciane Della Flora


 



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