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Martha Medeiros nas mãos da mendiga - Kerley Carvalhedo


Data de publicação: 31 de maio de 2017
Coluna: Kerley Carvalhedo
Colunista: Kerley Carvalhedo



 


 Semana passada eu estava resolvendo algumas coisas no centro de Belém. Depois de despachar o que estava pendente fiz o que mais me rouba o tempo e dá prazer – ir à livraria. Quando vou à uma livraria passo horas e horas escolhendo uns livros que vão para as minhas prateleiras. Tenho compulsa por livros. Às vezes compro livros que nem leio.



Pois bem, assim que sai da livraria pensei em dá uma passadinha no shopping e fazer um lanche. Mas foi só um pensamento mesmo. Logo que sai da livraria à umas duas quadras dali eu passei ao lado de um casal de mendigos e avistei nas mãos de uma mendiga o livro da escritora Martha Medeiros (Feliz por nada), reconheci o livro só pela capa. Não pensei duas vezes para se aproximar do pobre casal e perguntar o que achavam do livro. A resposta foi imediata: -Martha escreve muito bem! É um livro incrível!


Não fazia parte dos meus planos passar quase meia hora no meio da calçada batendo papo com mendigos sobre literatura. Quem passava por perto deveria achar que eu era um daqueles religiosos tentando convencer os mendigos sobre conceitos de religião. Que nada!


No meio da conversa quis saber um pouco mais sobre o livro... Ela me contou que se identificou com uma crônica chamada (Eu não preciso de almofadas). Identificou pelo simples fato de não precisar de muita coisa para ser feliz. “Eu só preciso de um coração firme e forte”. Essas foram as palavras da moradora de rua. A mendiga havia encontrado a felicidade nas calçadas da capital, inclusive na literatura da Martha Medeiros. Sentia-se livre - muito pelo contrário do que as pessoas imaginavam sobre ela.


Fiquei estático com tanta cultura e beleza em um só ser humano. Minha fome passou que nem percebi. A história daquela jovem senhora me encantou tanto que voltei correndo à livraria para comprar um exemplar do novo livro da Martha Medeiros (Simples Assim), ao passar o livro às mãos da mendiga aculturada pude ver o contentamento em seu rosto – ela me agradeceu me dando um colar feito por ela mesma de materiais reciclados. Agradeci pelo carinho e chutei pra casa.


Voltei pra casa imaginando como a vida tem suas formas de nos ensinar – mostrar que somos efêmeros diante da grandiosidade da alma humana. Cada vez que me lembro daquele dia fico menos pretensioso em agregar aquisições fúteis que mais tarde só me servirão de acúmulos.


Pensei na volta; eu não preciso de status, de dois apartamentos, dois carros, duas suítes. Também não preciso de superficialidades que só consomem meu tempo. Só preciso de mais amigos, mais viagens, mais livros, mais sexo. Estou cada vez precisando de menos. Menos caos, menos mememe, menos problemas, menos divã



Kerley Carvalhedo



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