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Na terra do sumidos - Kerley Carvalhedo


Data de publicação: 7 de junho de 2017
Coluna: Kerley Carvalhedo
Colunista: Kerley Carvalhedo



 


 Confesso que é muito difícil viver hoje sem a tecnologia, eu mesmo não me vejo, por exemplo, escrevendo esta crônica sem minha ferramenta de trabalho: um computador. A tecnologia é sensacional, – indispensável. Contudo, viver anônimo é quase impossível. Difícil sair às ruas sem ser notado, filmado, fotografado, ou parado por alguém que nos conhece.  
Semana passada estive em Porto Alegre, a convite, para participar um evento literário. Depois do meu compromisso, aproveitei para fazer um tour pela selva de pedra. Levei meu celular para fotografar os lugares que eu achasse interessante. Esse pequeno aparelhinho tornou-se parte das pessoas – e também tomou parte das vidas delas. Retornei ao hotel e, assim que entrei pelo hall, o wi-fi conectou. Após algumas poucas horas sem internet, recebi 4.789 mensagens, entre elas dezenas de chamadas perdidas. Uma verdadeira avalanche de informações. Passei o resto da noite explicando o porquê do meu sumiço. Me senti quase um GPS.


Dar informação demais me sufoca, me tira do sério.
No dia seguinte, pensei em fazer outro passeio sem o bicho de telinha. Assim fiz. Saí do hotel pela manhã e dei direito ao anonimato, ao sumiço – ganhei as ruas, os sebos de livros, os bistrôs, os parques. Sem compromisso com hora marcada de voltar, sem a necessidade das selfies, sem os clics a cada dois passos. Eu estava livre. – Tinha vontade de sair saltitando como uma criança feliz – longe das obrigações. 
Precisava desse tempo comigo mesmo. De ficar sozinho. De olhar para os rostos desconhecidos. Ir ao cinema e assistir o filme sem a interrupção dos “bips”. Fui seduzido pela paz de sentar num café e poder apreciar melhor o ambiente. Dar papo a quem não conheço.


Foi maravilhoso, depois do café, ouvir musica ao vivo em um barzinho logo ali na esquina. Tenho horror de quem vai num encontro de amigos e não consegue ficar um minuto sem checar a tela do celular. Vi a cena clichê em outras mesas do barzinho. Eu estava sozinho, claro.  Viajar é uma das melhores coisas da vida, é um dos recursos para fugir da vida de obrigações, muitas vezes sem graça. Viver longe do monitoramento das pessoas é libertador. Ser anônimo tem muitas vantagens: enxergar o mundo com os próprios olhos é uma delas. Na terra dos sumidos, podemos ser o que quisermos - sem medo, sem os dedos ditadores. Estar sumido é ter a oportunidade de ser um estrangeiro em terra anônima.


A desvantagem: nenhuma de grande relevância. Um dos melhores aspectos é esse mistério da vida: nos tornarmos reinventários de nós mesmos. 
É bom, de vez em quando, dar aquela sumidinha básica; esquecer um pouco do trabalho em excesso, da família que só pega no pé o tempo todo, dos olhos vigilantes que querem saber cada detalhe. Esqueça-os e vai aproveitar a oportunidade que surgiu de ficar só. Cá entre nós, é cada pechinchada que a gente faz nessas viagens. E o mais gostoso é sair por aí menos empacotado com todas aquelas roupas formais. Uma chinela de dedo, bermuda e uma camisa qualquer... Look pronto! Esteja aberto para novas experiências; felicidade à vista.


 


Kerley Carvalhedo



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