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Murmúrios do vento - Luciane Marangon Della Flora


Data de publicação: 11 de julho de 2017
Coluna: Luciane Marangon Della Flora
Colunista: Luciane Marangon Della Flora



 


Em uma dessas tardes estava eu a escrever. Trabalhava incessantemente, afinal tinha prazos a cumprir. Aliás, o que mais o adulto faz é cumprir metas, cumprir prazos. Vivemos, na realidade, o desejo de Álvaro de Campos tão bem pressuposto em sua Ode Triunfal.


Triunfos modernistas que não condizem com o que temos de humano. Por vezes, nos desumanizamos, agimos como máquinas, cumprindo prazos, atingindo metas, objetivos, mudando o mundo, no entanto, mudando pouco ou nada de nós mesmos.


Entre as letras documentais, meus ouvidos ouvintes, perceberam certo “ar agostino”  tocar a janela de minha sala. Era um murmúrio tão triste! Era um gemido longínquo, mas era!


Era de tarde, literalmente uma tarde de um ciclo que finaliza e perpetuará na história própria de cada ser. No entanto, o percurso do murmúrio parecia tão igual e tão triste como das tardes de agosto.


Muitos são os que não gostam desse mês, pois dificilmente está “a gosto” dessas pessoas. Pode até ser um mês de festa para muitos viventes e sobreviventes deste mundo, mas é um mês morno que faz lembrar uma espécie de purgatório, o qual pode ser um meio caminho para a ascensão aos céus, ou, talvez, a porta de um inferno sem igual.


O vento, no mês de agosto, murmura, não refresca e abafa. Faz a respiração ser sentida de maneira diferente, faz-nos pesados. Parece, por vezes, até o ar faltar. E não bastasse a falta, ele não para de murmurar, gemer, pedir ajuda, entoando como uma canção melancólica em nossos ouvidos. Uma ajuda que parece ser inatingível, uma vez que, muitas vezes, estamos de mãos atadas. Não conseguimos ser como queremos. Certo?


Entretanto, deveria ser este apenas um simples mês do ano, mas as mudanças climáticas nesse mundo globalizado favorecem a existência dos prefixos de negação. Embora desumanizado, descolorido, ainda assim não viviríamos em Marte. Ou viviríamos?


Lógico que às vezes nos sentimos deslocados, sem rumo, sem perspectivas viáveis ou, talvez, com perspectivas inalcançáveis, mas, em Marte?!


Ora, se o ser humano não sabe ouvir o murmúrio do vento de uma tarde ou de várias, se não sabe resolver seus próprios problemas, promovendo o “ranger das máquinas”, aquelas de Álvaro de Campos, de maneira tão sórdida, incessante, que bem faz faltar o ar, a respiração e faz com que o coração bata descompassado, como cuidará de outro local?


O vento murmura, pede ajuda e nada! Poderíamos nos questionar como suportar um mês de agosto fora do seu tempo. Como querer ser uma máquina, se somos falíveis e sentimos dor, sentimos todos os sentidos?


Temos que, talvez, na parada das letras, do cumprimento de metas, da mecanicidade humana, entender o vento, o seu lamento, o seu gemido, o seu murmúrio. Nem Marte, nem Vênus, nem qualquer outro Sistema Solar será capaz de tornar afável aquela pessoa que virou máquina, pensa e age como ela e esquece-se das emoções que nele um dia habitaram. Somos falíveis e é preciso saber ouvir os murmúrios do vento!


 


Luciane Marangon Della Flora


 



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