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Um dia você envelhecerá - Kerley Carvalhedo


Data de publicação: 25 de agosto de 2017
Coluna: Kerley Carvalhedo
Colunista: Kerley Carvalhedo



 


“A impressão que eu tenho é de não ter envelhecido embora eu esteja instalada na velhice. O tempo é irrealizável. Provisoriamente, o tempo parou pra mim” (trecho do texto de Simone Beauvoir).


Você já parou para pensar como você será daqui a 60 anos? 


Não querer ver as rugas aparecerem na sua pele pode ser algo quase impossível depois de certa idade. De um jeito ou de outro elas vão aparecendo deixando marcas mostrando que o tempo por ali passou. A menos que você prefira optar pelas “senhoras plásticas” já nesse caso nada contra, mas seria notória a arrogância da sua parte e o preconceito de não aceitar a velhice. Nós vivemos para enrugar.


Outro dia em visita à casa da minha vó pude ver o quanto o tempo passou por lá. Muitas coisas mudaram - outras resistem ao tempo, mas a velhice, ah, essa é inevitável. Os cabelos brancos e pele cansada se apoiam na confiança de quem soube viver, mas que um dia envelheceu.


É triste ver vovó aos quase cem anos de idade, morando sozinha, sentada à uma cadeira de balanço olhando para o além esperando o tempo passar.  O cansaço da velhice estampada em seus olhos tristes perdura há mais ou menos umas três décadas. Nesses últimos anos sua companheira fiel tem sido a bengala que a carrega consigo por onde anda para o apoio. Pensar na velhice e no cansaço dos dias é como escrever uma carta para si mesmo no futuro. 


Sentado naquela cadeira de balanço na casa da minha vó eu pude refletir um pouco mais sobre a velhice - na juventude a noção de tempo é uma incógnita, tudo é tão incerto que preferimos nem pensar em um futuro distante. Tudo é muito breve - chega os filhos, daqui apouco os netos, bisnetos e por aí vai.


Distante do estereótipo da juventude dos tempos áureos da adolescência, vovó olha no espelho o rosto enrugado, a pele flácida e envelhecida - os cabelos nevados pelo tempo lembra-se do rosto lindo que foi um dia parecido com a porcelana - dos cabelos longos e loiros. O que resta são os olhos azuis e muitas lembranças de um tempo que jamais irá voltar. 


“O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão.” (Gabriel Garcia Marquez em Cem Anos de Solidão)


Pior que a velhice é a solidão infinda de dias e horas que parecem ser eternos. Bem diferentes dos dias da juventude que passam como chuva de verão. 


Quando medimos o tempo, sentimos o medo eminente da velhice lambendo os últimos dias que nos restam. 


Nossa vontade é que o tempo retarde ou mesmo ele pare - mas nada disso acontece. Poderíamos fazer muitas coisas que ainda não fizemos, porém o tempo é cruel com nossa embalagem “corpo”. Na velhice já não temos tanta força e energia para novas aventuras, qualquer que for a ação exigirá um grande esforço. Nossa existência torna-se insignificante às milhares de gerações anteriores à nós.


Pensando em tudo isso, recordei da célebre frase do nosso queridíssimo Fernando Pessoa quando ele disse: “a vida é breve, a alma é vasta: ter é tardar!” se valendo da recordação como um prêmio de retardatário.  


Envelhecer pode ser assustador, mas nunca deixou de ser uma grande arte. Aos que conseguem chegar lá, é, de fato uma dádiva.


Aquele seu fôlego tão infinito da juventude agora é tão ofegante quanto à de um marinheiro depois de um naufrágio no mar - infelizmente na velhice a solidão é sua maior companhia de todos os dias, quando é abandonado até por si próprio muitas vezes.


Se você ainda não envelheceu, trate de viver o melhor da vida, pois, ela é curta e não podemos voltar o tempo para isso. Portanto, tente não se arrepender quando daqui a alguns anos olhar-se no espelho e não ter uma ideia mínima do que vê refletido nele. Mas tenha certeza que um dia a velhice ira chegar caso não morra antes.


 



 


Kerley Carvalhedo


 



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