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Um dia sem amigos - Kerley Carvalhedo


Data de publicação: 27 de dezembro de 2017
Coluna: Kerley Carvalhedo
Colunista: Kerley Carvalhedo



 


Todo filho tem ou já teve desentendimentos com os pais - eu tive muitos com os meus. Um dia sob forte e boba discursão com meus pais pensei em sair de casa e ir à casa de uma tia que ficava em uma cidade vizinha. Era noite, mas o clima tenso não me permitia ficar a vontade em minha casa.


Peguei minha mochila e coloquei alguns pertences o suficiente para passar uma semana. Alguns dos pertences, livros, cds, roupas e um tênis além de escova de dente desodorante e sabonete. Fui à gaveta da escrivaninha do escritório contei algumas notas em dinheiro e umas moedas que tinham lá - Um cigarro e fósforos.


Sai pela porta dos fundos em absoluto silêncio. Caminhando por uma estrada oposta ao centro da cidade eu estava com uma mochila nas costas de cabeça baixa, fones de ouvido e mãos nos bolsos da jaqueta que usava. A noite estava fria. Não passava ninguém, muito menos transporte que ia até a cidade vizinha àquelas horas. Insisti em ficar na esperança de passar um transporte que fosse para a cidade vizinha. Já passava da meia noite. Desativei o sinal do telefone para não receber ligações. Não queria que meus pais ou alguém naquele momento infortúnio me ligasse. Eu só queria ir embora para qualquer lugar longe de casa. De repente do nada um vento frio e forte começou a soprar arrastando as folhas secas pelas ruas vazias. Uma forte chuva começou a cair, corri pra debaixo de um daqueles pontos de ônibus para me proteger da chuva. Maldita chuva, maldito momento. Sozinho literalmente. E o pior de tudo, sem ter pra onde ir. Enquanto a chuva caía eu tentava me agasalhar em um cantinho da marquise do ponto onde os respingos da chuva não me molhavam. Quase uma hora de chuva muito forte começou a chover mais leve. Ouvindo musica olhei para o telefone a bateria estava acabando.


Ah, como eu queria ter amigos que eu pudesse contar naquelas horas. Ficar ali não seria uma boa ideia. Comecei a vasculhar toda minha lista telefônica procurando alguém que eu pudesse passar a noite. Não encontrei ninguém que eu ligasse sem inventar algum tipo de desculpas para não me receber. Só aí que me dei conta que não havia nenhum amigo que eu pudesse contar e que minhas amizades era supérflua.


Sabe quando você se sente a pessoa menos importante? Foi assim que me senti. Senti-me rejeitado, um jovem solitário e cheio de conflitos externos e internos. Mais que isso, senti incompreendido e atormentado. Continuei debaixo da marquise esperando a chuva parar. Retirei o cigarro do bolso da jaqueta e o acendi, fumei como se aquele cigarro fosse o ultimo do mundo. Chorei, apenas chorei. Voltei pra casa pior do que quando sai. A chuva caía mais suave na madrugada. Eu tinha levado as cópias das chaves de casa. Entrei discretamente pela porta dos fundos novamente sem fazer nenhum barulho e sem deixar nenhuma suspeita. Lá estava eu dentro do meu quarto deitado na minha cama ouvindo Bach. Dia seguinte boicotei contra todas minhas redes sociais e contatos. Não quis saber de ninguém. Foi a única vez que me senti mais próximo de um lobo fora da matilha.


 



 


Kerley Carvalhedo


 



chuva chuva