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O cronista e a crônica - Kerley Carvalhedo


Data de publicação: 12 de janeiro de 2018
Coluna: Kerley Carvalhedo
Colunista: Kerley Carvalhedo



 


Pergunta-se: o que é a crônica? Os mestres Manoel Bandeira, Rubem Braga, o psicanalista Contardo Calligaris e Drummond também tiveram dificuldades em defini-la, é certo que a crônica é um gênero aparentemente menor, com a complexidade das coisas ilusoriamente simples. Sem querer catalogar em gêneros, modalidades ou classificar, prefiro dizer que a crônica é a literatura sem ambição. A crônica no jornal é aquela respirada profunda.


Como já dizia Nelson Rodrigues e outros mestres, a crônica é a difícil arte de ser direto, franco, compreensível e coloquial. O cronista, não é aquele que sobe na cátedra e prega para a multidão, mas aquele que senta no meio fio e convida o leitor para uma conversa.


Da vida banal, Rubem Braga extraiu as mais poéticas crônicas do acaso no nosso destino, de Paulo Mendes Campos as ousadias, de Martha Medeiros os conselhos sensatos nas dificuldades dos relacionamentos afetivos, a efemeridade e a finitude da vida por Antônio Prata, o humor inteligente e sofisticado de Luís Fernando Veríssimo, as histórias cômicas de Ignácio de Loyola Brandão, enfim, são temas triviais, mas tratados com muita seriedade.


O cronista tem todos os assuntos à mão, até mesmo a falta dele pode virar uma crônica. Pode ser tema: um vaso na janela, uma borboleta, uma xícara quebrada, o vento que levanta a saia, um par de meias, uma noite em claro. Quanto mais trivial o assunto mais intrigante é a forma como é abordado o sentido, o humor e o lirismo da aparente banalidade cotidiana.


A crônica deveria ser deixada em paz, não sofrer nada de análises estilísticas, não ser alvo dos críticos da academia. Como disse o bom poeta Ferreira Gullar: “A crônica é a literatura sem pretensão, que não se bate com a morte: sai do casulo, voa no sol da manhã (a crônica é matutina) e, antes que o dia acabe, suas asas desfeitas rolam nas calçadas.” É esse o espírito da crônica, que aproxima o leitor do seu dia a dia, das alegrias e tristezas, reflexões e ousadias do homem comum, que de tão apressado e preocupado apenas com as grandezas, esquece-se de apreciar as miudezas do cotidiano.


O cronista de verdade não espera a tal da “inspiração” para escrever, aliás, até acho essa palavra “inspiração” meio romântica. Quem escreve em jornais, acha um motivo bem “inspirador” para trabalhar: cumprir prazos. Por isso a crônica é a boa literatura. A melhor definição para inspiração é a de Luís Fernando Veríssimo: “inspiração é o prazo”. A crônica é uma fotografia da vida atual, mas sempre acompanhando as transformações e comportamentos do ser humano. É fruto da observação, da vontade de traduzir sentimentos incompreensíveis. De contribuir para um entendimento sobre nosso papel no mundo. Temas e assunto não faltam, a observação do cotidiano é a fonte de matéria prima da crônica.


 



 


Kerley Carvalhedo


 



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