menu
Colunas

Até mais, Chefe! - Kerley Carvalhedo


Data de publicação: 28 de junho de 2018
Coluna: Kerley Carvalhedo
Colunista: Kerley Carvalhedo



 


Hoje era dia de publicar outra crônica, mas se tornou totalmente irrelevante diante do que aconteceu. É um assunto que tento evitar, pois nada é tão desagradável do que falar da morte de alguém.


Acabo de perde um grande amigo. Seu uniforme de trabalho foi colocado junto ao seu corpo durante o funeral – sei que nunca mais serei capaz de olhar aqueles uniformes sem me lembrar daquelas mãos que tantas vezes ajudaram seus amigos, sobre tudo, seus pacientes. Foi um choque ao ver aquelas mãos uma sobre a outra, inertes, sem vida. Helson. Era assim que se chamava esse garoto, eu o chamava de “Chefe” era como costumava tratar as pessoas.  


Helson, sempre foi um profissional exemplar, de levantar bandeira, desde a época que o conheci, a enfermagem sempre foi sua paixão por convicção. Toda vez que falava dos percalços da profissão, sentia a angústia saltar-lhes os olhos, contudo nunca permitiu que a frieza assumisse lugar no seu coração humano.


Sempre chegava à minha casa de bom-humor, independente da forma como tinha começado o seu dia. Isso me faz refletir: a falta de bom humor sempre leva muita gente ao sofrimento. É claro que, como qualquer outro ser humano, Helson também tinha seus momentos de desapontamento, porém nunca isso foi motivo para sair por aí descontando em quem não tinha nada a ver. Humildade, bom humor e carisma era algo que trazia consigo intrínseco, nunca deixava sair de moda onde tudo é transitório.


Naquela tarde de domingo (24/06) meu coração quase parou, quando recebi a notícia fatídica do seu acidente. Não quis acreditar no primeiro momento. Foi um susto maior na manhã seguinte, ao abrir os noticiários dos jornais locais que anunciavam sua partida, seu cortejo e seu translado para sua cidade natal (Belém). A notícia me deixou sem chão, pois naquela manhã eu havia recebido sua ligação dizendo que estava indo para um balneário, e na volta passava aqui em casa para um café. Não veio. O café esfriou e perdeu o gosto.


Foi uma perda irreparável. É uma dor asfixiante e virulenta. Aquela estrada de chão tinha uma curva (literal), a curva que lhe custou a vida. Todos nós faremos a mesma curva um dia, a curva da morte. Espero que minha mãe esteja certa quando me disse: “Kerley, não chore, não é um adeus, é só um até logo!”


As janelas dos bate-papos (Messenger e Whatsapp) estarão ausente dos seus “bom dia” carregados de energia. Sentirei falta dos joinhas (emoticons) enviados, sinalizando o início de uma longa conversa. Quando não mandava mensagens, vinha pessoalmente do seu local de trabalho (SAMU), para onde moro são só alguns passos. Este ano, Helson esteve várias vezes aqui em casa. Vou chorar toda vez que eu sair no portão, lembrando que você não estará mais lá. Nossas prosas eram tão boas que não fotografávamos, era longe dos holofotes, dos aplausos, ficávamos horas sem checar o celular. Como muitos não sabem; erámos amigos próximos, confidentes, contava-me seus planos, suas angústias, seus medos. Dizia: “Meu escritor, ouça esta história, vai lhe servir de inspiração”.


É o suprassumo da contradição alguém que sempre lutou por vidas, perder a sua de forma mais banal, ainda mais quando esse alguém trabalhava e defendia a vida como podia. Não dá para entender. Apenas conviver com a ausência.   Perdeu a vida, mas em troca, ganhou espaço no coração de todos que o conhecia.


A vida é incerta e efêmera, somos aprendizes, meros mortais. Apagam-se as luzes do palco da vida para ele, contudo, sua apresentação foi belíssima.


Aprendi muito com sua simplicidade, me mostrou que títulos são apenas títulos, o que importa é a humildade e o ser que somos diante da efemeridade da vida. Apesar de ter ficado órfão da sua amizade, levarei grandes lições e um pouco do seu viver.


O último adeus eu pude dar quando veio um dia antes à minha casa e lhe falei que era um grande amigo, que sua companhia era um alento para um escritor que tinha muito a dizer com palavras, mas que prezava a boa conversa, na companhia de uma xícara de chá ou café. Dei-lhe um abraço e vi sumir no escuro da noite, em direção ao seu trabalho. Esta cena ficará na minha memória. Sua voz jamais ficará inaudível aos meus ouvidos: “Você está bem, mestre?”


Porque tem que ser assim? Não temos resposta!


Qual é o sentido da vida? Usarei as palavras do poeta Ferreira Gullar: “O sentido da vida está no outro.”


Os amigos servem para nos ajudar a combater a solidão. As amizades verdadeiras servem para nos ajudar atravessar os dias de forma mais alegre e desassombrada. Existem pessoas que tornam nossa caminhada mais significativa pela companhia, pelo carinho, pela reciprocidade, pelas confidências. Helson, sua amizade foi um grande presente que a vida me deu. Valeu cada dia, cada hora, cada segundo.


É difícil dizer isto, mas será: menos um jaleco; menos um estetoscópio; menos um professor nas universidades ministrando aulas; menos um profissional que amava sua profissão; menos um grade amigo.


Obrigado por tudo! Agora chegou minha vez de repetir sua última frase dita a mim:


“Até mais, chefe!”


 



 


Kerley Carvalhedo


 



luto 01 1 luto 01 1