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Sentimentos anônimos


Data de publicação: 27 de janeiro de 2021
Coluna: Kerley Carvalhedo
Colunista: Kerley Carvalhedo



Grande parte das coisas humanas não se explicam. Alguns sentimentos podem ser experimentados, sentidos, mas não explicados. Nasci antes do advento da internet; porém, acompanhei sua ascensão durante minha adolescência. Foi nesse período que surgiram as primeiras interações virtuais com amigos de outros lugares.

Logo apareceram as primeiras salas de bate-papos e em uma dessas salas conheci um jovem moço com quem me correspondia diariamente. Durante várias horas, eu interagia com aquele estranho. O tempo passou, e em pouco mais de um ano já sabíamos quase tudo um sobre o outro.

Quando mais jovem, eu era introvertido, tímido, introspectivo e caótico. Entretanto, sentia-me confortável com esse tipo de interação pela internet.

A sensação era reconfortante, quase como dois amigos que se conheciam há muito tempo. Todos os dias, lá pelas altas horas da madrugada eu entrava no chat e conversava com o meu amigo, que nunca tinha visto e jamais veria na vida real.

A vida mudou, o tempo ficou parco, e as conversar foram ficando lacônicas. Não me lembro bem como aos poucos fomos deixando de interagir; talvez os compromissos da vida adulta tenham ofuscado o tempo sem que nos déssemos conta... Era algo que eu gostava muito de fazer, todavia abandonei esse hábito, de repente o mundo real ao meu redor me pareceu mais interessante.

Outro dia revisitei todos os canais de comunicação que usava, e alguns que ainda uso com mais frequência, para fazer atualizações de dados e informações. Encontrei as conversas arquivadas do meu “amigo virtual”, aquele com quem eu trocava mensagens todos os dias.

Em todos os séculos, na humanidade, houve grandes barbáries; então, não é de se pasmar que em tempos tecnológicos venha a acontecer o mesmo. Tudo na vida tem seu lado bom e, também, seu lado sombrio. Há perigos por toda parte, sempre.

Graças ao formidável uso da internet, tive a oportunidade de conhecer - na vida real - muitas pessoas maravilhosas, as quais, até estão, só conhecia pelo mundo virtual, por meio das redes sociais.

Agora, mais do que nunca, a internet tem sido a grande aliada em tempos de pandemia. Não há como negar que a tecnologia é o que temos de mais revolucionário, causadora de grande frenesi no último século.

Os encontros virtuais provocam sentimentos inusitados. Eu sabia muito sobre o meu amigo: a história de vida, o nome do gato, o gosto musical e até o seu passatempo favorito. Nasceu um sentimento fraterno: um sentimento de carinho, amor, devoção e ternura. Com a contagem dos anos aprimoramos nossos assuntos; falávamos sobre política, economia, literatura, família e sonhos. Na época eu estudava à noite, na volta do colégio eu ia correndo ao computador para ver se tinha algum recado deixado pelo meu amigo virtual.

Hoje, ao reler suas mensagens, senti saudades e desejei ardentemente ter mais uma daquelas longas conversas que tínhamos. Acostumei-me tanto a ele, que marcava no relógio a hora de entrar na sala de bate-papo. Não sei o que aconteceu, nem o porquê sumiu. Não há muito o que fazer. Esses são os encontros e desencontros da vida.

Prefiro deixar assim, como parte da minha experiência no mundo virtual, de alguém que um dia fez parte do meu cotidiano recluso, anônimo e secreto, alguém de quem sempre irei sentir falta. O último “oi” que escrevi faz dois anos, até agora nenhum sinal, ninguém apareceu, nenhuma resposta. Agora não resta mais nada além das conversas arquivadas e o grande silêncio.

Imagem: `Pexels