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Eu, o troféu e a solidão


Data de publicação: 9 de fevereiro de 2021
Coluna: Kerley Carvalhedo
Colunista: Kerley Carvalhedo



Durante muito tempo, escrevi para os jornais do Sul do País. Quando comecei, quase ninguém da minha cidade sabia, e se sabia não dava a mínima importância. Não sou do Sul, mas quando estive lá pela primeira vez tive a sorte de ser reconhecido e muito bem recepcionado, com direito a flores de boas-vindas, e até um motorista à minha disposição havia no hotel que me hospedei.

Morar em uma região e não ser reconhecido é o suprassumo da contradição. Viver em pleno Norte do Brasil e ser lido semanalmente apenas no Sul é mais que contraditório. Isso mudou quando minhas crônicas começaram a rodar todo o País até chegar onde eu vivia. Daí em diante, não parei mais. Fui convidado de honra em eventos, participei de momentos solenes, escrevi em sites, revistas, jornais e, quando parado na rua, alguém dizia: “Faz uma crônica sobre mim?”

O reconhecimento veio. Rendeu-me até o título de imortal na academia de letras local, não me rendeu dinheiro, mas as admirações estavam garantidas. Na época, eu tinha apenas títulos, reconhecimentos e bolsos vazios. Lembro que um dia fui chamado para receber homenagens do Dia do Escritor pela minha cidade. Por um instante, senti como se tivesse ganhado o Oscar, fui paparicado, abraçado e reverenciado, até a cerimônia terminar. Na primeira oportunidade, discretamente abandonei o pódio, em poucos minutos eu seguia o caminho de volta para casa, com um ar de contentamento e ao mesmo tempo de melancolia. Prossegui caminhando com um quadro numa mão e um troféu na outra, entre as árvores de uma avenida mal iluminada. Quem me viu andando naquele breu, nem passava pela cabeça que meia hora atrás eu estava no meu momento de coroação.        

Esperava chegar em casa e ter uma megafesta, ser recebido com faixas de cores vibrantes com meu nome, esperava que me jogassem espumante e depois confetes prateados. Esperava comemorar até o dia nascer.

Nada disso aconteceu. Não havia ninguém, nem sequer minha gatinha siamesa apareceu para pedir um pouco de carinho. Entrei em casa quieto para não acordar quem já estava dormindo, fui até o meu escritório, guardei os prêmios e terminei a noite silenciosa na companhia solitária de um troféu, uma garrafa de vinho esquecida num canto, um charuto que só servia de enfeite e o escritório abarrotado de livros mudos. Terminei minha noite ao lado de um troféu estático, tendo a solidão como brinde. Ilusória essa coisa chamada fama.