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Uma volta ao passado


Data de publicação: 17 de fevereiro de 2021
Coluna: Kerley Carvalhedo
Colunista: Kerley Carvalhedo



A casa onde cresci ficava na Rua das Orquídeas, era assim chamada porque o cultivo dessa planta era comum pelos seus moradores. As pessoas tinham o hábito de plantar árvores em frete às casas, próximo às janelas, com intenção de amenizar o calor em certos períodos do ano. 

Volto ao tempo em que a meninada não tinha acesso aos meios cibernéticos, então facilmente se podia ver uma criança brincar na rua à luz do dia e à noite; reunir-se para contar estórias; fazer fogueira; inventar lendas de criaturas do além. Inventar, criar, imaginar é um ato tão indispensável e importante do intento humano, que nunca deveria ser abandonado quando a gente se tornasse adulto.    

A adolescência foi chegando, meus pensamentos foram mudando, claro. Não sei se é o caso de todo adolescente; no entanto, minha tendência de querer ficar mais reservado, quase isolado e tímido, ficou mais intrínseca com o tempo. Muita coisa mudou; todavia, continuo introspectivo e restrito a poucos amigos; sempre fui de poucas pessoas.

Nesse período, parte dos meus amigos de infância se mudaram para outras cidades, outros bairros. Alguns se tornaram iguais a mim. Entretanto, permaneci inquilino daquele bairro, daquela rua. Comecei a ler muito. Meus amigos, então, eram “Monteiro Lobato, Irmãos Grimm, Hans Christian Andersen, Júlio Verne, Ernest Hemingway” entre outros autores; esses faziam parte da minha nova vida de leitor aventureiro.

Em frente à casa em que eu morava havia uma árvore de tamanho médio onde eu ficava a maior parte do dia, mantinha-me lá até desaparecer o último raio de sol, dando espaço ao escurecer do céu.

Lembro de alguns dias em especial. Saía do colégio numa alegria habitual, só para poder subir na árvore e me imaginar um aventureiro, o que de fato fui. Imaginava-me um marinheiro junto ao furioso mar. Forçava o balanço dos suntuosos galhos, sacudia a árvore inteira como se fossem ondas gigantes, deixando o chão acarpetado de folhas.

Inesperadamente meus pais mudaram de cidade a trabalho. Na nova cidade demorei a me acostumar, mas logo me senti em casa novamente. Cresci. Fiz novos amigos, viajei inúmeras vezes. Conheci o mundo de modo complexo, jamais em sua totalidade. Conhecê-lo assim seria impossível. Aventurei-me na travessia do Atlântico; embora nunca tenha me lançado ao mar de outra forma a não ser de navios. Vivi grandes experiências.

Recentemente viajei até a minha cidade, voltei à casa da minha infância. Não reconheci quase nada, além da casa de um casal de velhinhos, ambos já falecidos; a casa ainda continuava em pé, com suas janelas corroídas pelo tempo, as paredes desbotadas do sol e dos invernos intensos. Todos os amigos daquela época haviam ido embora. Restavam apenas um ou dois, os mais velhos. O bairro pareceu-me mais quieto, não se vê mais crianças brincando na rua. Senti nostalgia.

 Tudo é temporário, eu sei. Tão pouco sei sobre a vida e o amanhã. Só de uma coisa eu sei: a vida não seria a mesma sem nossas memórias, sem aqueles que um dia fizeram parte do nosso breve cotidiano.

Tudo mudou: as casas, as pessoas, o bairro. A casa que morei quando criança não tem a mesma aparência; os muros são altos como fortalezas, monitorados como um presídio; e a minha querida árvore deu lugar a uma enorme calçada, que serve de passarela aos que por ali transitam.