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Ama-se por nada


Data de publicação: 10 de março de 2021
Coluna: Kerley Carvalhedo
Colunista: Kerley Carvalhedo



Ela passou a vida cuidando dos irmãos mais novos e dos pais na velhice. Já havia desistido do amor, do seu príncipe encantado, até um dia participar de um concurso de poesia em sua cidade; ficou conhecida e foi chamada para apresentar seu poema em outro país: Portugal. A ideia era voltar para casa no dia seguinte após a apresentação. No auge dos seus quarenta e um anos, viu sua cara-metade sorrir quando descia do palco. Naquela noite, ele a convidou para dar uma voltinha, em resumo dessa história; ela casou-se por lá mesmo e construiu a família que tanto sonhou.

 

Assim como nossa amiga da história, temos a chance de viver um grande amor, basta não desistir, pois ele acontece quando estamos distraídos. Quando não estamos à sua espera. O amor nasce sem muitos rituais ou promessas. O improvável se apropria da cena a qualquer hora, a qualquer momento. O amor, seja como for, ele é surpreendente. Onde há desertificação o amor faz brotar jardins e florir quando ainda é inverno. Ele, o maior dos sentimentos, tem a fórmula da cura. Para cada decepção, há uma ferida, a cada ferida um inusitado e inesperado amor surge como antídoto. É possível se curar depois de um doloroso rompimento, contudo outros amores nos salvam da ociosidade, do caos sentimental, dos destroços que sobrou do obsoleto amor.

 

Nada se compara à chegada de um novo amor, seja ele próprio ou não. Só o amor é capaz de trazer esperança para os que habitam na escuridão sentimental. Ninguém ama por razão, amor não se explica racionalmente: é sentimento incompreensível, muitas vezes. Ama-se por nada. Ama-se porque amar é apenas sentir. Amor não é imposição. Não é um cativeiro. É susto transcendental, é o divino apresentado em ternura. O amor é como andar na montanha-russa − é turbilhão de sensações a cada subida e descida. O amor não traz consigo razões − se o amor é por status, sinto muito lhes informar: isso não é amor.

 

O amor mexe com os desejos mais íntimos que estão adormecidos. Cria em nós a essência humana. Ele não surge quando queremos, o amor é um sentimento vivo. Chega em devaneio e vai embora quando menos se espera. Fique em alerta, felicidade não é coisa de gente que anda distraída.

 

imagem: Pexels