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A arte de fazer rir - A história de quem, há três gerações, sobrevive da arte circense

No dia 08 de dezembro foi comemorado o dia do Palhaço, face a esta data as acadêmicas de Jornalismo Natieli Batistela e Vera Rebonatto elaboraram uma bela reportagem com a família Fermino, prorprietários do Circo Metopolitano que há quase 50 anos sustantam-se com a magia da arte circense. Acompanhe abaixo a reportagem.

 

DSC 0016A imagem é igual à maioria dos circos. As lonas montadas contam histórias, elas se repetem ao longo dos anos e são passadas de pai pra filho. Como entraram nessa vida? Os motivos são diferentes, mas o sonho é o mesmo: viver a aventura de não ter lugar fixo para ficar e conhecer gente nova e diferente de cada canto do Rio Grande do Sul. Eles são artistas, não daqueles cheios de glamour, mas daqueles que carregam a essência da arte no coração.

A mesma frase é repetida onde o picadeiro é armado. Todo mundo atento. Vai começar o espetáculo! Em pleno século 21, os circos mostram que ainda têm espaço para expor pelo menos duas coisas essenciais: o ambiente familiar e a criatividade humana.

A história se repete desde a antiguidade. Homens que descobriram a fórmula do riso encantam o público e passam essa tradição de geração em geração.


A história

A família Fermino não deixa o espetáculo parar. Desde os anos de 1960 percorrendo cidades gaúchas, eles fazem arte pela arte e pela sobrevivência. O clã dos Fermino é um dos raros grupos no estado que resiste à decadência dos circos de pequeno porte e continua encantando o público com atrações simples e tradicionais como o malabarismo, as acrobacias e as palhaçadas.

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O patriarca, Adão Fermino, 67 anos, é um dos destaques do circo. Além de dono do Circo Metropolitano, nas noites de espetáculo ele é o palhaço Lingüiça. “O circo é uma coisa que pega na pessoa e não sai mais”, isso é o que responde quando questionado por que viver no circo.

Paulista de São João da Boa Vista, Adão entrou para o circo com 17 anos. Desde os 14 ele é do mundo, quando deixou o pai e a mãe em Curitiba, no Paraná. Três anos depois ele deixou de lado também a foice e a colheita do arroz que fazia em uma lavoura. “Eu era daquele tempo que se colhia arroz no banhado com aquela foicinha de cortar feijão e soja. Fui criado na lavoura capinando”.

Adão era solteiro e decidiu arriscar a aventura com outros dois amigos. Um circo estava na cidade Londrina, também no Paraná, e os jovens resolveram que era hora de mudar de vida. Antes de embarcar pra aventura, voltaram para o interior, todos colhiam arroz quando ele anunciou ao patrão:

– Tô indo embora.

– O que? O patrão não acreditou.

– Tô indo embora pro circo, eu consegui um emprego lá. Adão não tinha dúvidas na escolha.

No circo Adão ganharia menos do que se ficasse trabalhando no interior, mas a aventura parecia tentadora e ele seguiu. Quem não quis arriscar muito foram os amigos que na divisa com Santa Catarina ficaram com medo de continuar a viagem e voltaram. “Se me perguntar hoje em dia quem são esses amigos eu nem sei, nem me lembro mais quem eram”, conta ele.

Adão entrou para a vida circense como empregado, armava e desarmava a lona porque era essa a competência atribuída para quem mal sabia o nome dos materiais. Nem o nome do dono do circo ele sabia. O circo que serviu de escola para Adão, era conhecido como Hingher Circo e seus espetáculos já eram tradicionais no estado.

Um dia Adão cuidava o globo da morte quando um senhor careca e de muleta se aproximou.

– Tu pode ir na rodoviária pegar as minhas malas?

– Não, não vou buscar as malas não. Eu tô aqui cuidando das motos pro dono do circo. Não havia sinônimo de confiança maior do que cuidar as coisas do patrão.

– Eu estou mandando você ir lá buscar as malas. O senhor careca insistia em mandar. Porém Adão não fazia ideia que a desobediência iria lhe render ainda mais empatia do dono do circo.

– Eu não vou não. Adão mostrou sua teimosia e não foi buscar as malas.

Aquele senhor de muleta era o proprietário Jorge Queiroz, um globista famoso. E tamanha responsabilidade fez de Adão Fermino o empregado do patrão e não mais do capataz do circo. Jorge já é falecido, mas Adão não esquece. “Quando eu vou lá onde ele foi enterrado, em Sertão Santana, eu paro o espetáculo e faço uma homenagem pra ele, o pessoal levanta aplaudir”.

De quem não sabia nada à proprietário de uma das companhias de circo mais famosas no estado. O picadeiro foi uma escola para Adão que em dois anos já integrava o grupo de artistas “Eu nasci pro circo não adianta!”. Durante 24 anos ele trabalhou para a companhia de Jorge Queiroz e decidiu ter o próprio negócio. “Eu tive sorte, eu comecei sem nada. Comecei com uma loninha bem vagabundinha, tinha um ônibus e um treilinho”, ele conta orgulhoso.

O ex-patrão Jorge se aposentou e presenteou Adão com o nome do Circo. Metropolitano. “Esse nome foi o Teixeirinha que trouxe dos EUA e acabou ficando comigo”. Adão virou dono do Metropolitano há 28 anos, quando a marca ainda era reconhecida pela aparição no filme “Ela Tornou-se Freira (1970)”, estrelado pelo cantor Teixeirinha, compadre de Jorge Queiroz. Adão até trabalhou no filme, fez trapézio e globo da morte. “O filme toma muito espaço, muito tempo da gente. Tem vezes que se grava dez vezes pra depois escolher qual é a melhor pra pôr no filme”, conta Adão, que não gostou da vida de ator.

O jovem que saiu do interior, e nunca sonhou em aparecer nas telas de cinema foi convidado pelo próprio Teixerinha a atuar em outras produções cinematográficas, mas preferiu ao circo. “Sabe que depois que a gente acostuma aqui a gente pega um amor por isto aqui que não larga por nada no mundo”. Ele não está arrependido da escolha.

 

Como são escolhidos os artistas do circo?

A cada 15 ou 20 dias, a grupo vive a ansiedade da estreia em uma nova cidade, muitas vezes nunca visitada. Quinze pessoas integram a equipe de Adão e cada um é responsável pelo sucesso de sua apresentação, ou o fracasso. O proprietário não assina carteira e explica o porquê: “De repente tu assina carteira uma semana ou duas e o cara vai embora, daí tem que tirar tudo”. Mas ele garante assistência e apoio quando necessário porque para ele o circo é uma grande família. “Se alguém ficar doente eu vou ajudar a tratar, largado eu não vou deixar”. Mesmo pai de três filhos crescidos, Adão é responsável por gente que vai se juntando á família ao longo do caminho.

O caminho até a cidade onde a lona vai ser montada não é fácil. A estrutura do circo exige seis carretas para ser transportar as 40 toneladas de material. Como são apenas dois os caminhões da família Fermino, Adão e o filho Luciano, 36, têm de fazer um mesmo trajeto pelo menos três vezes.

E ele explica, ainda, que em toda a cidade que o circo arma a sua lona tem um alvará a ser pago e através desse alvará a equipe circense tem direito de ser atendida. “Se chegar em um colégio e não tiver vaga, for pro outro e não tiver, a gente vai na delegacia na mesma hora e eles resolvem porque é obrigado estudar”, ninguém contesta Adão nesse caso.

Sem carteira assinada, mas com pagamento semanal. A contratação dos artistas é feita de maneira peculiar. Por telefone ou pela internet, os artistas são contatados e vem para o Metropolitano com a passagem paga e com as ordenadas acertadas, é só atuar.

A ordenada é o valor atribuído a cada número artístico apresentado no circo, quanto mais números o artista tem, mais ele recebe. Terminado o espetáculo no domingo de noite o ordenado deles da semana é pago. “Tem artistas que ganham 500,600 pau por semana”. O pagamento é livre de despesas como a água, luz e até da hospedagem porque Adão faz da carreta, quartos se o artista não tem aonde dormir.

No circo os artistas são pagos por semana e não por mês, o aviso prévio não é de trinta dias, como na maioria das empresas, é de quinze dias, tempo suficiente para serem substituídos, mas nem sempre é assim. “Tem gente que não dá, tem gente que embirra e sai. A gente tem que aguentar procurar encrenca pra que, né?”, comenta o proprietário.

Administrar um circo também tem lá os seus estresses. “Às vezes tu contrata uma pessoa e vem outra. Tu contrata uma pessoa que diz ‘faço isso, faço aquilo’ e quando chega não fazia nada daquilo”. Então é hora de Seu Adão colocar os pingos nos is. “A gente tem que sentar e conversar, ver como o artista trabalhou e o que será feito porque se esperava que o número fosse uma coisa e é outra”, explica.

Adão Fermino trata dos artistas que tem como uma família. Diz que não é daqueles que se desfaz de um artista para ter outro melhor pelo mesmo valor. “Pra mim são iguais”. E é assim também que trata os circos. “Dizem ‘aí tem um cirquinho’, não tem nada de cirquinho. Cirquinho e circão todos são iguais. Eu tinha um cirquinho pequeninho, não tinha carreta, não tinha nada. Por que agora eu vou dizer que fulano tem um cirquinho na beira da estrada? Cada um tem a sua vida e leva do jeito que pode”, tenta dar uma lição de moral nos esnobes por aí.

 

As regras

Esses artistas não tem mordomias e nem conhecem o glamour dos artistas famosos. Isso não significa que não sejam grandes artistas.

A cada temporada de shows os artistas se dividem entre o palco e os bastidores. Eles precisam montar os cenários, vender ingressos e os vários quitutes, como pipoca, maça-do-amor e algodão doce com sabor de circo.

Quem olha para o centro do picadeiro talvez não imagina que por trás dele organização é fundamental, afinal, assim como no espetáculo, o tempo passa depressa. Lá atrás tem as roupas, as pinturas, o sapato do palhaço, tudo certinho pra ninguém atrasar na troca de figurino. O palhaço, por exemplo, leva apenas dez segundos para se pintar, conta Fermino.

Ele explica que no começo é difícil para o artista porque não há lugar pra se arrumar e nada, tem que pegar cadeira e colocar a roupa em cima. “eu deixo a casa deles no fundo e cada um se arruma em casa”, os funcionários não se arrumam no mesmo espaço que os familiares do dono. Adão tem um trailer no fundo do circo onde ele mesmo controla o som, a iluminação e se troca para também participar dos espetáculos. “Lá tem que guardar tudo certinho pra dar certo é que nem no caminhão, tudo prontinho. Chegou o dia de mudança é só abastecer e mudar”, ordens que os funcionários já sabem de cor.

Cidade grande ou pequena, armado o picadeiro a alegria rola solta. Fermino prefere cidades pequenas só quando sente que é hora de descansar. Não é muito chegado a lugar pequeno porque “o pessoal vai uma vez e depois não vai mais. Diferente da cidade grande onde sempre tem gente que vai”, informa.

Ele conta que já fez parcerias com parques de diversões, mas a sociedade não deu certo. Segundo ele, os empregados do parque, tem hábitos que ele odeia. “Tenho família, tenho uma neta de 12 anos, tem os guris do fundo... eu quero respeito. Se o cara quer fumar que saia, vá lá pro meio do mato, mas aqui dentro não. De bebedeira eu também não gosto”, ele segue esses princípios até hoje.

Todos que entram para o Metropolitano de Seu Adão conhecem as regras. “Quando um artista arruma uma namorada eu até deixo entrar de graça, mas não dá pra dormir com a guria na carreta, tem hotel, vai dormir no hotel”.

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As atrações

Elas são o motivo da presença do público. Os espetáculos se renovam constantemente, mas tem um que sempre com a mesma fórmula segue encantando os olhares e arrancando os sorrisos. Já ganhou até música do amigo Teixerinha. O palhaço é o rei do sorriso.

Não são um, mas quatro, um deles é o Moleza, o Ladrão de Bicicleta. E tem até a presença da Galinha Pintadinha para a alegria das crianças. Mas não é somente isso. Quem vai ao Metropolitano pode conferir o Taxi Maluco, a coragem e a pontaria sendo desafiadas pelo Atirador de Facas, a concentração com os malabares e com o chicote americano.

Doze anos e uma elasticidade impressionante. A mulher borracha – ou seria menina? – sobe ao palco com sorriso no rosto, concentração e equilíbrio sobre o corpo. Ela parece não ter articulações, dobra para os lados, para cima, para trás. Tamanho contorcionismo arranca gritos e palmas da plateia que acompanha os números quase sem respirar.

Quase sem respirar o público também fica com os números de O Homem Aranha no trapézio e com a apresentação de dois irmãos. Um adolescente, o outro criança e um acessório fundamental: o mastro. Com ele, em torno dele e sobre ele, os Irmãos Rodrigues se equilibraram, e nas alturas.

Equilíbrio também Pablo Pires que caminha e faz malabares sob uma corda. Nas alturas também há atrações com tecido e acrobacias em argolas.

Há dois anos, os animais no circo eram outro atrativo, mas Seu Adão já encontrou o que substituísse o que a lei proibiu. “Agora eu sinto que é melhor. Antes a gente tinha bicho e globo da morte não precisa ter artista, com essa lei tivemos que aumentar a companhia, colocar mais artistas”.

O proprietário do circo lembra que antigamente as pessoas de 80 anos não iam ao circo por medo dos leões e agora começam a voltar “Tem gente que vem de muletinha. Que coisa linda! As mulheres, os homens entram carregados pelos outros e ainda tem gente que vem teimar ‘não tem bicho pra gente ver?”, Adão é irredutível.

A proibição de animais desafiou os artistas a apresentar novos números. Agora eles são o motivo da visita do público ao picadeiro. E esses números Adão Fermino encontra principalmente na tevê. “Hoje em dia a gente tem que pegar o que tá na boca do povo, tem que mostrar o que tem na televisão, a Galinha Pintadinha dá um resultado tremendo”.

O proprietário só lembra das vantagens na proibição dos animais “ mesmo que a lei não vigorasse, eu não queria mais bicho. Era demais a despesa, eram 30kg de carne por dia. O gasto com o leão dava pra manter três famílias".

 

O público

De tempos em tempos a polêmica de que os circos vão acabar é levantada. Uma hipótese que Adão Ferminino descarta, apesar de concordar que sem dinheiro não consegue se manter. A sobrevivência do circo é garantida com a bilheteria, com o bar e na aposta de um bom espetáculo.

Quem visita o circo? O público já não é o mesmo de antigamente. Principalmente nas cidades maiores. O circo deixou de ser a programação das famílias, dos casais de namorados para o final de semana. “Antigamente as pessoas iam mais no circo. Sei lá. Eu acho que vai inventando muita coisa, é televisão, é internet, é muita coisa. Primeiro 50% do circo eram jovens hoje em dia os jovens só querem ficar escutando som e bebendo. É se matando, fumando maconha, é só isso que se vê”, desabafa.

O público é basicamente formado por adultos, que conheceram a tradição circense quando crianças. Alguns, tentam ensinar os filhos a apreciar a arte. Os jovens trocaram o circo por lugares como as baladas. “Acho que não teria mais como recuperar esse publico jovem. A gente tem que levantar a mão pro céu e viver a vida. Meu circo ta bem, graças a Deus”, ele conta conformado.

As pessoas que visitam o circo não tem do que reclamar, “eu cuido muito as pessoas que vem. Eu trabalho de palhaço, não posso levar a mesma coisa todos os dias, um dia uma coisa e outro dia outra se não aquela pessoas que veio uma vez e outra vez, não vem mais”. Sem o público o motivo dos espetáculos deixa de existir.


Gente do circo

No amor que Adão Fermino não larga por nada no mundo foi criada a família. Ao lado de Adão Noeli Fermino está há 43 anos e com ele teve uma filha e dois filhos, 3 netas e dois netos, todos envolvidos na arte circense. Os filhos mais velhos cada um tem um circo, um em Santa Catarina e o outro no Paraná, e o terceiro acompanha o pai; alguns dos netos já estão inseridos no ofício, outros começam a desenvolver a arte.

Arte que o patriarca desenvolveu a partir dos 20 anos quando iniciou no trapézio e no globo da morte. Hoje o proprietário do Circo Metropolitano no Rio Grande do Sul desenvolve a arte da palhaçada, mas para ele o personagem principal do circo não é o palhaço. O palhaço leva o nome do circo, mas Adão diz que tem que ter outros números. “Se fosse só o palhaço o bom, só o palhaço iria fazer circo. O teatro não teria acabado, fechou porque só os palhaços é que trabalhavam. Ele (o palhaço) achava que só o drama que ele levava estava agradando e não era”.

Adão ou Palhaço Linguiça não larga a arte de fazer rir de jeito nenhum. Há quinze anos ele e a mulher construíram uma casa em Lajeado, pensavam em ter uma profissão diferente, teve até quem ofereceu emprego de motorista. “Tava tudo certo pra largar do circo. Acho que o circo prendeu na gente. Eu olho pra aquilo ali (aponta pra lona) aaaaa...”, ele suspira. Não precisa completar a frase, o sentimento de Adão pelo circo é evidente. Ele é apaixonado pelo que faz.

Ele conta que as vezes está em Lajeado descansando, mas não consegue sossegar, principalmente se dá uns relâmpagos. “Quer ver a gente ficar nervoso é estar com o circo cheio de gente e começar a trovejar e relampear, aí dá medo. Meu santo é o São Jorge. E você sabe que eu peguei uma fé nele que parece que o tempo tá armado e abre”.

De São Jorge Adão não se separa e nem do Rio Grande do Sul.

– Eu me considero um gaúcho de mão cheia.

– É, mas tu é paulista.

– Não. Eu sou gaúcho.

E ele ri.

Como na maioria dos circos, as crianças que crescem nesse meio aprendem desde cedo a se pendurar, fazer palhaçadas e, muitas vezes a cair. É delas que vai depender a sobrevivência da arte circense, elas vão continuar conquistando o público das cidades de interior e centro dos estados brasileiros. Mas se depender de pessoas como Adão Fermino, elas vão ter muito o que aprender.

Aprender que um circo não vive só de palhaçadas e malabarismos. Aprender a fórmula do riso é, antes de tudo, aprender a fórmula de esquecer a própria dor, dor de estar longe da família, dor de não ter lugar pra ficar ou superar seus limites a cada espetáculo para encantar pessoas desconhecidas.

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Memórias do circo

Adão nos conta uma das histórias que guarda até hoje, e conta para quem quiser ouvir:

Tem tanta coisa na vida da gente que acontece que a gente não esquece. Tem coisa boa, tem coisa ruim. A melhor coisa que tem na minha vida foi ter conhecido o Teixeirinha e a Mari Teresinha.

Eu conheci eles só quando eu tava aqui (no circo), as vezes quando eu ia a Porto Alegre eu ia lá a casa dele almoçar. O motorista dele era meu compadre, ele batizou o Luciano (filho). Cansei de chegar lá e ele saia na porta e comentava: “Bah! Eu cheguei de madrugada, o carro ta sujo e eu queria ir no centro”. Eu sempre respondia: “Deixa pra mim”. Eu abria a garagem dele, botava a camioneta pra fora, lavava, secava. Eu era de casa e tinha uma confiança, uma amizade que é uma coisa que a não vou esquecer nunca.

Tu sabe que ele e ela (Teixeirinha e Meri Teresinha) me ajudaram muito.Eu tinha INPS, tinha tudo, o dono pagou. No guri (Luciano) me apareceu um furúnculo na perna e com o passar do tempo um médico tirou radiografia e disse que tinha que operar e não é que o médico cortou do lado; ele fuçou pra dentro e pegou o osso. Operou.

Sarou, mas apodreceu o osso. Um dia nós estávamos em Santa Rosa quando eu levei o Luciano no médico, ele disse que tinha que cortar a perna do Luciano fora. A mulher ficou quase louca. O guri tinha 5 anos e estava chorando. Chegou a Meri Teresinha e pediu o que ele tinha. Na mesma hora a Meri pegou o telefone e ligou pra Porto Alegre, pros médicos dela, e explicou o caso. Os médicos pediram pra que mandassem o guri. Terminado show, eles (a mulher, o guri e a Meri) embarcaram para Porto Alegre.

Quando chegaram em Porto Alegre o motorista já estava esperando na rodoviária com a ambulância. Foram para o hospital e os médicos falaram que era pra rezar porque só um milagre pra salvar a perna deste guri. A Meri falou que não era pra se preocupar com dinheiro.

Tu sabe o que é o médico chegar e falar pra ti ‘ele vai perder a perna’? Dá tristeza né. Essa força eles (Teixerinha e Meri) me deram, eu devo tudo pra eles. O médico disse que se ele ficasse bom, o próprio osso endireitaria a perna dele. Em pouco tempo o osso pegou firmeza e depois ele já jogava bola. Não prejudicou em nada, ele faz trapézio, dirige, não sente nada. A gente não esquece isso nunca, a pessoa viva ou morta...

Às vezes a gente não conta nada disso pra ninguém. Isso é uma amizade que não vai sair da gente nunca. É um favor que eu devo pra eles de ver o filho andando.
Eu rasguei o meu INPS.

A gente tem que rezar pra não ficar doente.

 

Por: 

- Natieli Batistela
-Vera Rebonatto

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